25 Feb
25Feb

Há um erro confortável, e por isso recorrente, na leitura da crise democrática contemporânea: tratar o problema como se fosse apenas institucional. Como se bastasse arrumar as regras, trocar lideranças ou reforçar mecanismos de controle. No meu pós-doutorado, a hipótese central é outra: a democracia está sendo corroída por uma crise de comunicabilidade — isto é, pela perda da capacidade social de produzir entendimento comum, discordar sem destruição e decidir coletivamente sem colapsar em guerra moral permanente (calcificação da polarização).

Essa crise não nasce do nada. Ela se alimenta de um ecossistema de comunicação que mudou de forma radical na era das plataformas. O que antes era mediado por instituições relativamente estáveis (imprensa, partidos, associações) passa a ser filtrado por algoritmos, pela economia da atenção e por uma disputa incessante por engajamento. 

A consequência é um ambiente em que a circulação de informação deixa de ser um “meio” e vira o próprio “campo de batalha”. E, nesse campo, o prêmio não é a verdade — é a captura de percepção. Para organizar esse diagnóstico, proponho um modelo: a Democracia Comunicacionalmente Frágil (DCF), composta por três dimensões que se retroalimentam. 

A primeira é a Fragilidade Estrutural Comunicacional (FEC): concentração de mídia, desigualdade de acesso digital, opacidade algorítmica e a lógica de atenção como infraestrutura do debate público. A segunda é a Vulnerabilidade Institucional Democrática (VID): baixa confiança, enfraquecimento de partidos, controles institucionais tensionados e heranças autoritárias que reduzem a resiliência do sistema. 

A terceira são as Dinâmicas Sociais Patológicas (DSP): desinformação, polarização afetiva, estratégias populistas e desengajamento cívico — a parte “visível” do problema, que costuma ser tratada como se fosse o todo. O caso brasileiro ajuda a enxergar o mecanismo com nitidez. A pesquisa desenvolveu um índice (IFCD) para medir essa fragilidade (0 a 10) e aponta o Brasil com 7,4, em patamar de alta fragilidade, em comparação regional (Colômbia: 7,4 Argentina: 6,6 e Chile: 6,0).

O ponto aqui não é transformar um número em sentença definitiva, mas perceber o que ele sintetiza: quando a estrutura comunicacional, instituições e dinâmicas sociais entram em espiral, a democracia vira um sistema que só funciona formalmente, mas perde capacidade de gerar consensos mínimos, administrar conflito e preservar legitimidade.

É nesse cenário que o populismo digital encontra terreno fértil, e que a desinformação deixa de ser um “ruído” para virar uma técnica de governo e de oposição. A comunicação política, então, passa a enfrentar um dilema difícil: ou ela contribui para restaurar algum nível de comunicabilidade (com responsabilidade, prestação de contas e cuidado com enquadramentos), ou ela intensifica o colapso ao transformar tudo em disputa total. 

Em outras palavras: a crise não se resolve com uma peça melhor de propaganda; ela exige accountability, arquitetura institucional e alfabetização midiática — e nenhuma dessas dimensões é resolvida por tecnologia sozinha.

No fim, a conclusão é menos heroica e mais exigente: democracia é escolha ativa, cotidiana, e depende de um ambiente comunicacional minimamente saudável. Se a nossa leitura do problema continuar reduzida a slogans (“é só censurar”, “é só liberar geral”, “é só punir”), nós vamos seguir tratando sintomas como causas. E, quando isso acontece, o tempo político cobra juros altos.

Comentários
* O e-mail não será publicado no site.