12 Feb
12Feb

De tempos em tempos, a política tenta reduzir o Brasil a uma caricatura binária, mas a realidade insiste em ser mais complexa. A pesquisa “Verdade — sobre o que pensam os brasileiros” (realizada pela Ágora Consultores por encomenda do Instituto Conhecimento Liberta e publicada na Revista Liberta) é um balde de água fria em quem aposta em fórmulas prontas. O estudo não mapeia apenas intenção de voto, mas comunidades de sentido: grupos que se movem por valores, medos e uma noção muito particular de justiça, que nem sempre encontra eco nos discursos oficiais de Brasília. 

A robustez dos dados (um survey com 9.497 entrevistas, 95% de confiança e margem de erro de ±1,0 p.p.)  permite enxergar que o eleitor não é um bloco, mas um mosaico de seis perfis distintos, que vão dos “Populares por Proteção” à “Esquerda Urbana Progressista”. Um dos pontos mais sensíveis aparece no bloco sobre justiça e punição. Quando confrontados com o dilema de punir dez pessoas para garantir que nove culpados não escapem — mesmo que um inocente pague o preço —, 55% dos brasileiros aceitam a injustiça em nome da ordem. Entretanto, quando o cenário envolve um filho, a percepção muda drasticamente. Isso mostra que a demanda por segurança é transversal, mas convive com um profundo desconforto moral que a comunicação política raramente sabe explorar sem cair no populismo barato. 

Na economia, o sonho do negócio próprio (43%) supera de longe o desejo pela estabilidade do setor público (11%). Há uma pulsão por independência e lucro que aceita o risco, mas que não deve ser confundida com uma adesão cega ao liberalismo de manual. O brasileiro quer autonomia, mas teme o desamparo. Tratar o eleitor como um "empreendedor nato" sem oferecer rede de proteção é um erro de enquadramento que ignora a ansiedade de quem vive na corda bamba entre o lucro e a sobrevivência. 

O grande erro das campanhas e mandatos continua sendo a preguiça do "público geral". A pesquisa prova que temas como feminismo, religião e direitos humanos são lidos sob lentes completamente diferentes dependendo da "comunidade de sentido" em que o indivíduo está inserido. O que é proteção para um grupo é percebido como ameaça para outro. 

Para os políticos profissionais e marketeiros, ignorar essas nuances na hora de construir uma narrativa é o primeiro passo para falar sozinho ou, pior, para gerar rejeição imediata por falta de sintonia fina. Sem uma comunicação democrática transparente e segmentada, o conteúdo vira ruído e a desconfiança no sistema — que 26% já veem como mero esquema das elites — só aumentará. 

O caminho não é mais propaganda, mas mais accountability e precisão narrativa. É preciso falar de ordem sem autoritarismo e de economia sem desprezar o medo do risco, respeitando a inteligência de um eleitor que está cada vez mais cético. É bom lembrar disso agora, pois quem deixar para entender a alma dessas "comunidades" apenas na véspera de 2026 descobrirá que o tempo da política não perdoa a falta de estratégia.

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